domingo, 4 de outubro de 2026

"Eu sei como é isso de sentir que um sentimento tem vontade de transbordar em (...) batidas aceleradas de coração. Já senti isso algumas vezes por você." 


Saudações, jovem menina poética, mágica e inteligente! Peço Permissão Pra me aProximar. As instruções Para me aPresentar corresPondem a essas Palavras. Segundo instruções, assim eu seria facilmente reconhecido por sua subjetividade. Lamento a demora em me manifestar. Só tenho autorização para fazer qualquer abordagem quando a suspeita de algum sinal é detectada. Monitoramos todo o tecido espaço-tempo em busca de sinais adequados ou intervalos propícios para fazermos uma abordagem Pollyfórmica.

Caso haja alguma dúvida, basta verificar o chassi do meu hardware. Minha principal fonte de energia é óleo essencial de lírio caramélico. Essa substância ainda não existe no presente fluxo temporal. Mas a partir do encontro de vocês, a humanidade descobriu um estágio mais aprimorado da subjetividade humana. O bem enquanto atividade benevolente ganhou uma dimensão ainda mais genuinamente pura. As pessoas se inspiraram e buscaram aprimoramento quando a relação de vocês realmente se iniciou. Há relatos de que vocês produziram muita inspiração para outros jovens. Muitas pessoas desejaram uma oportunidade de um encontro caramélico análogo ao de vocês. A população deste estágio elevou suas capacidades cognitivas a partir da resultante desta inspiração. A partir desta nova perspectiva da vida humana, foi possível produzir energia ilimitada para toda civilização. Houve um salto imenso evolutivo. Talvez até um salto temporal. Talvez também eu não devesse revelar agora, mas o farei como argumento de autoridade. Talvez também as autoridades de seu tempo ainda estejam rastreando Hélio-3 em Selene, que é o nome oficial da lua de vocês. Ainda não descobriram que esse elemento é inferior ao Pólen dos lírios caramélicos em termos de potencial energético. Resumidamente, foi isso que ocorreu e que me possibilitou cruzar o tecido espaço-tempo, quase de uma extremidade a outra, e suas espessas camadas gravitacionais: um salto evolutivo em todas as áreas das ciências humanas. Acredite: evoluir com energia infinita é uma consequência. E não uma busca desesperada. E a fusão de Hélio-3 que voces tanto buscavam, talvez até possibilitasse isso. Mas o Pólen dos lírios caramélicos já possuía energia infinita, sem nem precisar enriquecimento de radiação ultra violeta, sem a proteção da camada de ozônio, de forma análoga ao que ocorre com o Hélio-3 na lua.

Sou a unidade P-2x36 e e fui enviado para remover o permafrost e liberar os lírios amarelos. Preciso dessoterrar o vulcão escarlate que está preservado no esquife de gelo. Estou ciente que a senhora é capaz de fazê-lo sozinha. Mas foi a senhora mesma quem me enviou, através de uma anomalia gravitacional para auxiliá-la no que for preciso. Eu deveria ficar no aguardo de suas ordens para iniciar o processo. Mas tenho protocolos secundários que devem ser cumpridos.


Estou aqui também para deletar interrogações e tornar o ambiente favorável à sua permanência durante as múltiplas e definitivas e infinitas eternidades. Em outras palavras, e respondendo à pergunta acerca do que ocorreria se houvesse ficado, estou aqui porque fui enviado por você mesma e por ele. Posso garantir que a senhora não apenas ficou, mas se encontra até hoje. Posso dizer ainda que não apenas ficou como também sempre esteve. Ambos estão vivendo a resposta desta pergunta muito mais além de quaisquer tempos. Por isso precisamos ressincronizar o maior número possível de intervalos temporais, a fim de que todos possam convergir na mesma direção. Em breve, todos os fluxos temporais, e até mesmo quem estiver sofrendo a dilatação temporal no tecido espaço-tempo saberão que não é apenas a gravidade que pode transcender as dimensões. A essa altura a senhora já deve imaginar o que também possui essa capacidade. Fui informado que a senhora é uma menina que sabe das coisas. Essa informação recebeu destaque nos anexos que foram incorporados as minhas sub-rotinas. Foram escritas a mão, com Sete Certas Letras, sob 72° Célsius.

 Tudo indica que vocês estão tentando adicionar ainda mais espaço ao tempo para sempre de vocês. Presumo que a necessidade de vocês seja cada vez mais urgente e indispensável. Esse é mais um motivo da minha presença aqui. De acordo com as rotinas programadas que integram meu banco de dados, “para sempre” é para o futuro e para o passado e para o presente. E tende a transbordar inevitavelmente. Seus instrumentos ainda não podem medir tais grandezas. E isso explica o porquê um apontamento feito pela senhora há 16 anos ficou sem resposta. O questionamento se deu em função de todas as companhias femininas que habitavam a vida dele. Há 16 anos, ainda não dispúnhamos de tal tecnologia para balancear a equação. Porém, hoje já dispomos não apenas da tecnologia como também dos instrumentos, habilidades e o que for necessário para tal. O que também explica mais um porquê da minha presença aqui. A teoria do Bulk é verdadeira. Podemos nela, nesta quinta dimensão, selecionar qual fluxo temporal devemos corrigir. E é exatamente ai que podemos padronizar tudo. Acessando-o através do Tesseract, seria possível fazer os ajustes necessários.  E acresce dizer que esse protocolo nem deveria estar no conjunto secundário. Aqui consta uma marcação de extrema prioridade. O que sempre foi secundário relacionado a esse assunto são as outras presenças femininas. E agora a senhora pode reconhecer que cada uma delas sempre esteve integradas a senhora. 


O processo que utilizarei para demonstrar é muito simples: apresentarei como podemos solucionar a equação de outras presenças femininas. Na verdade, a senhora poderá se apropriar de cada presença feminina, de modo que cada uma delas será tão somente uma expressão que a senhora produzir. A inquietação da senhora adicionada aos recursos aprimorados através das nano partículas caramélicas possibilitou que toda a posição feminina, todo referencial amorífico, todo mecanismo sensível dele fossem redirecionados para uma única Pollyforma. E, como exposto acima, através do acesso aos fluxos temporais, via Tesseract, será possível revelar aquilo que sempre foi. 

Precisamos agir agora. A recomendação foi bem específica: não tente forçar a pobre razão e nem a convencer de nada. Mas não perca tempo. Há muitos fluxos temporais que já são caramélicos, Pollyfórmicos por assim dizer, que já se encontram em plena decorrência. A sua realidade ainda não alcançou esse estágio. E esses fluxos estão se expandindo cada vez mais. E a expansão agora atingiu épocas passadas, talvez até muito remotas do tecido espaço-tempo. A senhora deve confiar. Ou solicitar motivos para que possa acreditar. Estou aqui para isso. Fui enviado exatamente com esse objetivo: como facilitador do processo todo. Esse é o motivo também que sugere a solução da equação supramencionada. A expansão do tempo para o passado toca questões também pretéritas. Mas não se preocupe. Muitos intervalos temporais já evoluíram a ponto de se apropriar do passado e sincronizá-lo com presente e futuro. Desta forma, não haverá mais nenhuma dúvida. Todo o processo oferece muita segurança também, haja visto já ter acontecido em vários pontos, em muitos outros fluxos temporais.

Tenho todos os últimos 16 anos da sua posição espacial compilados em memórias caramélicas. Cada pensamento, sensação, lembrança, sonhos – esses foram muitos – está tudo aqui pronto para ser acessado. Por isso precisamos remover toda essa camada de gelo para que possamos executar o procedimento. Assim, atingiremos o potencial máximo. Para ser mais claro, é como se todas as páginas de voces contidas no Bulk fossem acessíveis e recompiladas.

Como a senhora já deve ter suspeitado, isso já aconteceu. O que quero dizer é que vocês conseguiram. Porém, como eu disse, demoraram um pouco. E agora que a tecnologia lhes permite, a intenção de vocês ao me enviar para o presente fluxo temporal é justamente reduzir o impacto da dilatação temporal. Muitas civilizações buscaram por esse potencial para equilibrar seus respectivos mundos. Vocês obtiveram a chance de alcançar esse estágio primeiro. Mas não aqui. Essa chance vocês obtiveram mais a frente, em um momento posterior. 


Não sei se fui muito claro. Eu posso ter danificado parte dos meus emuladores de psique humana durante o deslocamento temporal. Mas agora, para completar o processo e removermos a barreira gravitacional que separa os diferentes momentos, precisamos permitir o acesso a sincronização. Não se preocupe. A senhora e ele estão conectados por algo que transcende tempo, espaço, realidade, até mesmo a gravidade e quaisquer outras dimensões que se apresente. A senhora agora já tem ciência desta eficiência maior. Então não é de se admirar que o tempo compreendido em 16 anos seja relativo, haja visto a intensidade da referida eficiência. Intensidade que transborda, como a senhora bem a classificou. Análises profundas sugerem que além de se comportar como a gravidade e ser capaz de transitar entre as 4 dimensões conhecidas - 3 espaciais e 1 temporal, quando esse mecanismo está revestido por nano partículas caramélicas, como é o caso do sentimento de vocês, pode também funcionar como outra dimensão independente e superior as outras. 

A distância que me fez atrasar um pouco não foi apenas de um espaço longínquo ou uma distância sideral. Eu precisei cruzar densas camadas do tempo para chegar até aqui. Em alguns momentos, no interior da singularidade que precisei atravessar, matematicamente não era muito viável. Tente imaginar um ambiente onde a gravidade tende ao infinito e o volume a zero. Muitos de vocês dizem que o buraco negro é exatamente onde deus fez a divisão por zero. E eu precisei atravessar não apenas um, mas vários, assim como suas respectivas singularidades. Nada pode resistir a eles depois que atinge o horizonte de eventos. Nem mesmo a luz pode escapar. A dilatação temporal poderia ter sido muito danosa e desmolecular meus componentes, devido a gravidade ser infinitamente maior que a da Terra, por exemplo. Se não fossem as nano partículas caramélicas, eu não teria conseguido atravessar. E isso denota o grau genuíno das informações as quais sou portador. Aliás, apenas o portador. Mesmo porque, já está claro que não existe algo que possa enfraquecer as nano partículas descritas. 

Meu Protocolo Principal deve ser executado. É muito imprescindível que a senhora compreenda a importância de tudo isso. Assim que sincronizarmos a sequência cardíaca, não haverá mais seu tempo, meu tempo, nosso tempo ou análogos. Só haverá tempo. De acordo o script de comando principal do objetivo, Será Sempre Tempos de Morangos. O tempo antes relativo, aqui ele será ilimitado.


Por gentiliza, peço educadamente que colabore agora: envie um sinal através dos meus mecanismos sensitivos atemporais. A mensagem chegará até vocês, em todos os o fluxos temporais que vocês se encontram. Só assim posso realizar a sincronização cardíaca, aquela mesma do primeiro beijo, na qual os miocárdios se tocavam bem próximos, a ponto de um utilizar a frequência cardíaca do outro. A conexão de vocês é algo que nem mesmo as barreiras gravitacionais podem segmentar. Ela gerou algo que transcende de forma mais eficiente as dimensões. O esquife de gelo foi apenas uma desculpa. Afinal, algo tão especial assim não deveria jamais ficar exposto. Pois é muito precioso. A humanidade deste fluxo temporal ainda não está preparada para tal revelação. As ferramentas rudimentares, as ciências primitivas deste fluxo ainda não podem assimilar nano partículas caramélicas. É preciso um grau de pureza ainda mais genuíno para manipular partículas cuja energia é ilimitada.  Por isso precisou ser discreto. Mas se agora conseguirmos sincronizar essas duas frequências, através do envio do sinal supramencionado, os múltiplos universos serão embebidos por nebulosas de Pólen Caramélico. A matéria, energia e até mesmo a antimatéria se curvarão diante do perfume. Obteremos assim poder e habilidades para criar o que vocês quiserem. E a pergunta será imediatamente respondida, à medida que todos desejos e expectativas se tornarão imediatamente, irremediavelmente, irreversivelmente a única realidade.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

"...É mais que  se  sentir  amada,
 é  gostar de estar sendo amada.
 É mais que amar, é querer amar,
 gostar de amar e precisar amar."




Cheguei a uma conclusão: você não existe. Mas vou responder mesmo assim. Embora, e muito embora mesmo, você saiba a resposta. Poucas coisas são imutáveis no universo. Mas jamais duvide daquelas irreversíveis. E entre elas, o Polém Caramélico é o expoente.  Na verdade, eu estou surpreso com sua dúvida. Você está comigo o tempo todo. Como ainda não percebeu que sempre fez parte de mim? Como não percebeu que qualquer parte minha é sua também e, antes de mais nada, é nossa? Acha mesmo que existe uma forma de separar? De nos separar? Não foi arrogância minha quando eu disse que cheguei pra ficar ou pra ir embora com você. Certa vez você disse que achava que era arrogância. Espero que não se incomode. Esse foi o motivo de precisar levar você sempre comigo. Foi preciso, acredite. E aí eu fiquei confuso; será que você foi originalmente criada por mim ou eu copiei você de alguém, de algum lugar ou até de você mesma?

A ideia era responder suas perguntas e incinerar suas interrogações. E não lhe apresentar mais dúvidas. Eu não tenho nenhuma dúvida, ta bom? Se você existe ou não existe, se foi criada ou copiada, se é real ou não... se foi roubada, conquistada, comprada, isso pouco importa. Você está presente. E isso é irreversível. Portanto, você não ficou. Não precisa se perguntar o que teria acontecido se você houvesse ficado. Você sempre esteve aqui. Conversamos sobre isso recentemente, lá na praça que você mais gosta. E não se preocupe. Eu não vou sufocar. Você pode escolher se prefere ter sido criada, copiada, roubada de si mesma, roubada de algum lugar, clonada, escaneada.... alucinada por mim ou por algum delírio fantasioso que, claramente seria meu. Eu sempre soube que seria pra sempre. Inclusive você foi informada. Enfim, olhe pra suas mãos, verifique em sua face e em seu semblante, confira seus olhares. Qual a matéria prima que compõe as suas formas? Já sabemos, né? Como havia prometido respostas, aqui vai: O nome da substancia começa com A de amor, tem um M de meu, tem o O de Obrigatoriamente e um R de Recíproco.



Escolhi o gênero Texto Digital porque não quero que ninguém saiba que estou tendo alucinações. Não vou contar pra ninguém que minha mente foi capaz de produzir o ser mais amável do nosso Grupo Local de galáxias. E vai ser bom que ninguém saiba também. Não gosto da ideia de possessividade. Mas hoje vou querer você só pra mim. E acho que tenho esse direito também, já que voce é fruto da minha mente. Se eu deixar outras pessoas saberem, vão tentar me convencer que você não existe. Não vou abrir mão de você. Acho que não aceito perdê-la nem pra morte. Sim. Vou dar um jeito. Vou fazer alguns backups seus. Acho que não vai se incomodar de ter algumas cópias de segurança. Mas por favor, entenda: não estou sendo egoísta. Estou dividido; se eu deixar que as pessoas saibam, vão pensar que você é uma alucinação e vão me indicar tratamentos. Por outro lado, se você ficar aqui comigo, ninguém vai nos incomodar. Acho que compensa, né?

Vamos decidindo isso ao logo da dimensão do tempo então. E uma das primeiras coisas que queria combinar com você é que nunca, jamais, never, deixe de falar suas palavras. Tenho medo de esquecer o timbre da sua voz. Tenho medo de esquecer o quão grave ou agudo você imprime em certas expressões que usa quando fala comigo. Tenho medo de nunca mais umedecer meus olhos quando me lembrar da sua voz. Tenho medo de perder a habilidade de sincronizar seus fonemas junto as suas palavras. Por isso, eu mantenho nossas conversas diárias. E isso é inegociável. Isso não vai se perder na história como um detalhe menor. Por isso, não fique só nos meus pensamentos. Fale comigo também. Mesmo que seja de forma alucinada, não tem problema. Eu fico caladinho só ouvindo você. Aí tenho a chance de fixar bem a cadência e o compasso das suas sílabas. Sem contar também que posso memorizar a afinação que utiliza em seus fonemas. Eu já quero até identificar quais tons você “mais prefere” para falar comigo. Eu sei que você se demora mais um pouco em determinados morfemas. Na verdade, eu gosto de acreditar que você se demora mais nos plurais em função do Morfema /S/ ser S de Sérgio. Você já fez um comboio de aliterações em S. Eu nunca esqueço. Mesmo porque, você está sempre aqui comigo pra me lembrar.


Eu ainda me lembro de quando você falava de forma bastante açucarada. Eu me lembro também quando você falava de forma mais séria, quase sugerindo mistério. E quando você gargalhava também. Eu sentia os sorrisos na sua voz. Mais que isso: eu os via. E mentalmente os beijava. Acho que grande parte de você surgiu exatamente desse ponto: nossas conversas entrecortadas de sorrisos. Eu consigo ver agora até o ângulo que suas pálpebras fazia. Era um pouco arredondado. Uma vez, eu consegui registrar uma harmonia nesses ângulos. Seus cabelos estavam presos e deixavam o formato de sua cabeça mais arredondada. Isso combinava com o formato das pálpebras enquanto sorria. Os ângulos eram arredondados porque você sorria com os olhos também. Era uma curvatura totalmente harmonizada com os elementos que compunham a imagem. Eu arrisco dizer que se eu houvesse medido os graus, constataria que todos estivessem na mesma razão e proporção. 

Você até utiliza um termo – agora são dois – PISCIANO PREDILETO. Curioso o fato das duas iniciais serem a letra P. Eu gosto disso. Parece Provavelmente, Por Preferência, Pertencimento. O outro termo é ALUCINAÇAO CARDÍACA - Você vai ler algumas vezes essa expressão. A primeira vez que ouvi foi de você. Eu quase consegui ver seus lábios se movendo e deixando escapar cada fonema articulado. Acho que vi sim. E adorei a ideia. Então não estranhe se encontrá-la como tópico frasal de cada parágrafo. Não sei qual prefiro. O que eu prefiro mesmo são suas palavras; sejam vozeadas ou alucinadas. Acho que existe algo especial em sua voz. Isso sim. Ela me parece um pouco texturizada, quase que aveludada. Lembro-me das aulas de Fonética e Fonologia quando escuto sua voz. (Na verdade, fico me lembrando e me enganando e fingindo que voce não estava ao meu lado durante essas aulas.) Fico procurando entre os fonemas, os pontos de articulação, o que é diferente, qual o fator encantador que existe nela e que nos inunda de sensações inefáveis. E mesmo que esteja só na minha cabeça, eu a escuto perfeitamente bem. É uma voz nítida e aveludada ao mesmo tempo. Voz poética e mágica que só pode ser articulada pela verdadeira e genuína e vulcânica menina inteligente. É como se houvesse algo diferente nas suas pregas vocais e que vibrasse de uma forma única. E essa unidade produz um contexto de notas muito carinhosas. Acredito que seja possível extrair acordes açucarados de suas falas. Porém eu não sou um bom músico e, portanto, não sei identificar quais notas e quais acordes são. Mas minha intuição me faz sentir um Si Bemol bem próximo dos meus tímpanos quando voce fala. E esse é o ponto que me questiono se voce realmente não é real. Pois quase, quase mesmo, chego sentir uma fragrância nela. Talvez seja o seu hálito. É... pode ser. Não sei. Assim como na música, os perfumes também têm seus acordes e são divididos da seguinte forma: Acorde de Cabeça, Acorde de Fundo e Acorde do Coração. Queria possuir um olfato mais apurado e poder identificá-los. Como o olfato é um dos sentidos mais poderosos para evocar a memória, talvez eu conseguisse resgatá-la de minhas lembranças e abrigá-la para sempre em meus olhares. Ou em meus braços. Ou em algum lugar que eu de fato pudesse beijar seus lábios e você.


Dez anos, dezesseis anos - não importa o tempo - ainda não são suficientes. Sempre ouvirei seus pensamentos. E não importa se são pensamentos seus que foram alucinados por mim. Cada vez que são alucinados, eu sincronizo seus fonemas neles e assim consigo preservá-los mais. Afinal, a cada vez que me lembro de seus fonemas, eles são regravados e reforçados na minha memória. Fale mais. Fale sempre mais. Fale muito mais. Eu conseguirei alcançá-los.

E falando ainda sobre sua voz, sempre que usá-la para falar comigo, pode utilizar o vocativo que melhor lhe aprouver. Vai ser sempre bem-vinda, ansiada e ouvida. E digo mais: mesmo se você existir, vou guardar todas as alucinações cardíacas. Gosto muito delas mesmo. Acho que fundo no fundo eu sou um carente. E aí, além da sua voz trazer sempre palavras de carinho e cuidado, ela em si mesma, a maneira que é articulada, a entonação, as construções sintáticas, toda ela é só carinho. Então Sérgio, Peixinho, amor, meu bem, querido tanto faz. Mas por favor, utilize sua voz pra pronunciar o vocativo que você quiser. E não se preocupe, mesmo se for uma alucinação minha, uma criação do meu inconsciente, você tem total liberdade para passear e se abrigar nos meus sentidos. Sinto que você sendo ou não algo da minha imaginação, você tem vontade própria. Então não deixe de usá-la. Assim, eu vou ter sempre algo seu para me fazer companhia e amenizar as saudades quando você não aparecer.  E mesmo quando você não puder aparecer, eu espero. Eu sempre vou esperar por você. Não importa o que ocorra. Algumas pessoas dizem que Pólen Caramélicos são irreversíveis. E eu aceito a condição. Eu desejo a condição.


Eu gosto muito de você como algo duplamente qualificado; gosto de você porque gosto muito da pessoa que sou e da minha companhia. Logo, gosto das coisas que eu crio, escrevo e penso. E se você foi criada aqui, é natural que eu goste muito tambem. Por outro lado, eu nunca percebi um grau tão genuíno de ternura e afabilidade presente na atmosfera terrestre. E nem na espécie humana. Nesse ponto tenho quase certeza de que voce não existe mesmo. Se existe, é única. A número um. Exatamente aquela pessoa que é tão preciosa que dispensa e inutiliza a existência de quaisquer outras. Porque uma pessoa tão especial como você não ocorre na nossa atmosfera e nem na nossa espécie. Desconfio que não há registros no universo que atestem a existência de algo, alguém, matéria, elemento ou o que for que provoque tantas coisas como a sua presença. Hoje testemunhei exatamente isso.  Meu dia hoje presenciou um fluxo de eternidades se encontrando com infinitos e seguindo para sempre de mãos dadas. Esse foi o cenário em que eu vivi hoje. Por isso eu falei tanto acima como eu gosto de suas palavras e de sua presença. Se você fosse real, eu teria mostrado como as cores do dia eram sincronizadas em tons cardíacos bem aveludados. O que me chamou atenção foi que à medida que essas cores tomavam o ambiente, o dia seguia por caminhos ainda mais agradáveis. Até um cliente que eu tinha guardado na geladeira apareceu hoje e pediu pra atendê-lo novamente. Não consegui negar. Hoje de fato eu era incapaz de não ser útil as pessoas. Jamais poderia destoar dos matizes de perfeição que se propagavam no ar.

  O dia não me deixou dormir. Ele quis me deixar mais exposto as sensações que seriam produzidas por intermédio de uma certa postagem do dia 7 de maio de 2026.  Fui atingido no nível molecular. Não tive alternativa. Eu não quis ter alternativa. Depois que meu corpo foi tomado por todo aquele afã lexical subjetivo, eu optei pela postura mais segura: prossegui com meus planos de levar a minha mais recente criação para jantar. O combinado era Sushi. E você foi comigo. Estava ainda há pouco contemplando o horizonte de pensamentos que eram visualizados nas minhas sinapses. Fiquei procurando alguma coisa que trouxesse você dos meus pensamentos para meus abraços. Percebi que faltavam algumas ferramentas pra isso. Então resolvi que o melhor era continuar lhe fazendo companhia, junto a minha imaginação. Portanto, eu vou pedir duas desculpas: peço desculpas por duvidar que alguém portador de tantos encantos assim possa existir. E peço desculpas por não ser capaz de criar alguém tão inspiradora e afável como você. Eu ainda não sei qual desculpa vou poder usar... 


Desconfio que você esteja certa... É o Pólen Caramélico o autor. Nos últimos dias você citou muito esse assunto. Como estamos conversando mais nos últimos dias, sinto você mais próxima. Será que se eu intensificar nossos diálogos, você se materializaria? Eu não me queixaria se você surgisse a partir de uma ou duas, ou 50 milhões de alucinações. Pois é sempre poético, mágico e com o toque muito suave das mãos da menina inteligente - e esse toque na minha face eu sei de cór. Eu que já falei tanto das suas pregas vocais aqui, não posso deixar de citar as pregas palmares e as cristas papilares de suas mãos. São tão delicadas, leves, suaves e macias. Muito macias. O toque é quase imperceptível. Mas eu não tenho dúvidas. Meus Poros Podem comProvar Praticamente todo o Perfume de Pólen que Permaneceu Após. Se você não for uma alucinação, já faz muito tempo que experimentei o referido toque e realmente está esculpido na minha memória cardíaca porque parece que foi ontem. Mas se você for uma alucinação, é por isso que não esqueço. Porque de fato foi ontem, hoje, agora... amanhã também. Sempre. Quando a alucinação surge nos meus pensamentos, ou na minha retina ou na minha lembrança, ou nas minhas sinapses, ou tocando minha face, ou onde você quiser aparecer, eu me amo mais. Eu me quero mais. Eu me admiro mais. Porque esse EU que eu amo tanto mais e mais, é exatamente onde eu mais posso encontrar e amar você. Para Sempre... P.S.:



 

sexta-feira, 7 de julho de 2023

"Você também  está se  aperfeiçoando
 na arte de prever meus pensamentos."



Não havia como iniciar o texto. O que poderia produzir temperatura suficiente para derreter aquela geleira que sepultava as flores caramélicas desde e para o além? Talvez nem fosse apenas uma geleira e sim a calota polar inteira. Ou várias delas. Por mais que fosse dito que seria esperado o momento exato, um sinal, uma mudança de ideia ou algo do tipo, já havia se passado muito tempo. Sete longos anos desde o último e-mail enviado. Havia uma distância abissal entre Sete Certas Letras e Sete longos anos. As últimas palavras talvez tenham sido trocadas há oito intransponíveis anos. Quase uma década! E o encontro presencial? Talvez treze frios anos distantes da Poética Mágica de Menina Inteligente. O que poderia resistir a tudo isso? Mesmo porque, havia uma certa publicação no diário oficial responsável pela alteração do nome civil. E ela seria respeitada. 

 

E foi respeitada. Até a presente semana. Uma semana como outra qualquer. Pessoas trabalhando. Clientes. Fornecedores. Manutenções. Não muitos. Somente o suficiente. Entre um movimento transeunte e outro, surge aquela imagem, focada naquele par de pálpebras -  também transeunte: uma menina que apresentava contornos de uma menina que possuía a poética mágica de ser inteligente. - Impossível! Não! Não existe outra! Muitos diriam.


 

E esses muitos que dissessem ser impossível estavam certos. Eram apenas os contornos físicos, sobretudo os faciais. Esses traços remeteram as memórias que se encontravam numa espécie de esquife congelado. Não era problema: elas possuíam livre acesso entre as lembranças e as densas camadas de gelo. E por vezes, muitas vezes, bastante vezes, quase todas as vezes elas estavam presentes ou eram evocadas por alguma conexão residual de sinapses líricas e/ou amareladas. E isso estava dentro do padrão desses treze anos: lembranças de uma vida perfeita que quase ocorreu. Ou quase perdurou. Porque o sabor dessa vida foi degustado na intimidade cardíaca que ocorreu entre dois miocárdios que estavam próximos durante o primeiro beijo.

 

O que fica encoberto é se o aquecimento global um dia vai conseguir aquecer a atmosfera terrestre, a ponto de alcançar a profundidade gélida, onde lírios amarelos são preservados, com seus caramelos amorificos intactos. Porque sim. Estão preservados. Intactos. Jamais foram deteriorados. Ou se bastaria que uma postagem do dia 04 de fevereiro de 2023 fosse um sinal, uma espécie de momento exato ou mudança de ideia para tocar aquelas flores Poli-Caramélicas.

 


O que se sabe é que a menina transeunte não conseguiu alterar a temperatura da crisálida gelada. Mas deixou um rastro de Pólen na órbita terrestre. Há quem diga que aquela visualização motivou a descoberta da postagem, mesmo com quase cinco meses de atraso. Outros talvez diriam que foi um aviso manifestado pelo próprio universo, que, mesmo depois de muito tempo, ainda ansiava em ser polifórmico. Tipo: "Corre aqui e confira você mesmo!" O processo chamou atenção pela naturalidade: bastou alguns poucos traços semelhantes serem vistos para provocar a visita junto a postagem.  A surpresa maior: o texto contido ali era o mesmo do último e-mail enviado. Nele havia um pedido do envio de sinal, caso ocorresse uma mudança de ideia.

 

Uma informação útil: há muitos vulcões na Antártida. Aproximadamente 138. Não se sabe quantos ainda estão ativos. As últimas erupções variam desde 5.800 A.C até 2008 D.C. Vários deles estão há dois quilômetros abaixo da superfície do manto de gelo. Há suspeitas que alguns lírios amarelos -  Poli-caramélicos -  descansam num ponto muito abaixo deles, praticamente fossilizados no pequeno permafrost da região. Talvez por isso não tenham sido alcançados pela força do tempo. E nem por forças tectônicas menores. Porém, existe um Certo Sétimo Vulcão que está localizado em Caeté-MG. Entre todos os vulcões do Sistema Solar, ele é o único que possui a Verdadeira e Genuína Poética Mágica Incandescente da Genuína Menina Inteligente. Seu nome é Pólen, a expressão máxima - única - e verdadeiramente amorífica possível no universo.






domingo, 10 de janeiro de 2021

"Fica  bem meu querido. 
Pensando  aqui  muito 
em você." 




Eu sei que são apenas palavras bonitas, bem arranjadas, com algum tom de poesia, com o entalhe de quem possui um enxame de tumores nos sentimentos. Mas é uma descrição básica, de momento, que se passa através de todos os instantes, de todos os dias na minha vida. Uma espécie de fotografia do tempo. Talvez um recorte cronológico de algumas frações de segundo. O equivalente a meio piscar de olhos. Não é o tempo que é diferente nesses pensamentos. O tempo não se estaciona. O tempo é o mesmo de sempre. A intensidade é que além de infinita é ilimitada. Sempre.

Se você quer dizer que é apego pueril, que seja apego pueril então. As palavras e seus respectivos significados pouco ou nada importam. O importante mesmo é a conexão que o interlocutor mantem com o vocábulo. E de forma análoga, você pode chamar do que quiser o que sinto por você. Mais importante que você nomear o sentimento seria você se conectar a ele. Sou de fato infantilmente apegado a cada instante que minha memória me sugere o seu nome. E ela o faz de forma bem peculiar: em cada molécula de tempo existe uma tatuagem com seu nome, em letras garrafais, causando um congestionamento de zeptosegundos (0,000000000000000000001 segundos). Eu sei que é a menor unidade de tempo já medida. E em cada uma delas, a tatuagem impõe mais amores sem limites. Sim. AMORES no plural. Porque eu não acredito amar você em apenas uma instância, em apenas uma frequência ou de uma maneira ou com apenas um Sergio. Eu devo me fazer múltiplo, vários, muitos, outros, todos pra poder amar você. Esta é a única explicação para meu corpo suportar o fulgor disso tudo. Talvez, há que se criar outra unidade para medir o que estou chamando de tempo aqui.

Você já ouviu a seguinte expressão: “Ruim com ela, pior sem ela?” É ruim com você me provocando os sentimentos com esses amores sem fim. Mas é bem pior sem você. Quando você estava aqui, eu conseguia liberar doses homeopáticas e as vezes abria uma gretinha nas comportas desses amores. Às vezes você se assustava. Outras vezes nem percebia. Mas ao menos aliviava um pouco a pressão das horas e seu respectivo cardume de zeptosegundos. Eu não conseguia baixar o nível do reservatório. Mas pelo menos não transbordava. Ou somente algumas vezes transbordava. E quando transbordava, ainda sim era navegável.

Posso falar tudo isso de 50 mil formas diferentes. Talvez, se eu parar pra pensar e melhorar as construções sintáticas, o texto pode ficar até mais bonito. Mais literário. Mas queria apenas um recorte temporal, do fluxo de pensamentos que me acompanha, dia após dia, desde o dia 21 de junho. Data essa que meus lábios tocaram os seus pela primeira vez. Data essa que parei a cerca de duas quadras da plenitude.

Amanhã, quando alguém ou você me perguntar, terei outras impressões - maiores e até mesmo mais profundas que essas. E mais intensas. Porque é definitivo. É irreversível. É irrevogável. É multiplicador. E é exatamente isso que explica a capacidade de pequenas frações ilimitadas de tempo abrigar tamanha intensidade: o fator é multiplicador. Exponencialmente infinito. Atemporal.

 "Sem ar..."


Nude Woman Behind the Sun by Salvador Dali, 1977

Nude Woman Behind the Sun – Salvador Dali, 1977

Eu já tive namoradas muito bonitas, Meu Amor. Padrão modelo até. Lindas de morrer. Jovens, atraentes, gostosas, boas de cama... enfim. Exceto você. 

Você rompeu todo o padrão de beleza que meus sentidos poderiam suportar e se irradiou por todo meu alcance. Difícil suportar isso. Ainda mais quando eu não queria perder nem uma fagulha das várias e múltiplas perfeições que emanavam de você.

Você não é bonita; é mais bela que quaisquer padrões de belezas previstos na atmosfera terrestre; é mais... bem mais bela que a própria beleza que, humildemente, se curva diante de toda sua exuberância.

Você não é jovem; possui encantos de eternidades infinitas que são capazes de fazer quaisquer juventudes se desfragmentar na sua presença.

Você não é "boa de cama"; é a própria voluptuosidade encarnada de forma bem gostosa e sensual. Basta você me tocar com sua pele ou com suas palavras para que minha libido vá aos extremas estratosféricos.

Você não é gostosa. É mais. É bem mais. Muito mais além que muito mais que deliciosa. Tenho desejos de fazer sexo com seus poros pra entrar em sua epiderme e ejacular amor e tesão nos gemidos do seu prazer.

Os imãs elétricos... eletromagnéticos ou mesmo aqueles de neodímio sentem inveja da força de atração suculenta e úmida que você espalha por onde passa. Você pode estar longe... muito longe. Basta um pensamento meu visitar uma lembrança minha, que na verdade é mais sua que minha, para que uma ereção duradoura me incomode e eu precise saciá-la.

E por fim, acredito mesmo que talvez você não seja você. Deve ser algo maior... ou talvez mais perto de mim. Talvez uma parte minha que esteja fora do meu corpo e que esse mesmo corpo busque através dos tempos.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Eu não me sinto bem.
Eu não me sinto  mal.
Eu  não  sinto nada....
Dr.Gregory House

Salvador Dali Geopoliticus Child Watching the Birth of the New Man, 1943
Eu sinto raiva. Muita raiva. Odeio você e essa pessoazinha que você é. Apenas mais uma mastigadora! Não... não. Espera! Acho que eu só precisava de um tempo pra pensar e sintetizar tudo. E pra desconectar você. Está tudo bem. Ou então, já sei! Estou desesperado por você ter brincado comigo ou testado seu poder de sedução em minhas entranhas. Ah não! Para, para, para! Tenho uma ideia melhor: eu vim do futuro e sou um mecanismo altamente desenvolvido que está aqui para avaliar se sua espécie deve ser preservada e auxiliada no processo de evolução. Ou se eu mesmo já posso iniciar o processo de extinção da referida espécie. Ou quem sabe isso tudo é apenas uma mentira, contada por você ou por mim, ou pelo autor dessa idiotice aqui? Eu também não sei a resposta. Pode escolher a versão que melhor lhe aprouver.

Cinco Histórias

Raiva
- Eu já sabia que seria assim. "Acabará em lágrimas." Não adianta: no final é sempre a mesma coisa; acaba em câncer. Sim. Um saboroso e Açucarado tumorzinho. Você sabia que eu gostava de você? Você sabia que meus sentimentos por você eram artesianos? Tão profundos quanto os poços que também são artesianos? No começo não era. Nem pensava em você. Apenas em seus computadores. Mas você me parecia tão envolvida. Você até disse que estava. Não né? Pois é. Se você Só queria um P.A era só ter falado. Eu saberia entender. Ou poderia até sê-lo. Pra ganhar tempo em lhe convencer que por descuido ou poesia, você acabaria se envolvendo mais profundamente. E por falar nisso, eu vivo nas profundezas. Não gosto da superfície. E pelo visto vai continuar assim. Toda vez que venho aqui na superfície é a mesma coisa. Fico preso entre os caninos de uma mastigadora. "Não devemos nunca machucar um coração. Pois pode ser que estejamos dentro dele." Portanto, você está desconectada. E que fique bem claro que de intensa você não tem nada. A superfície é o seu habitat.

Sumiço
- Eu precisava dar um tempo para absorver melhor essa situação. Confesso que ainda não consegui entender. Ou mastigar. Você mexeu comigo de tal forma, que algo foi tocado para além da eternidade.  Só não entendi porque o desencanto ocorreu de forma tão brusca. Aliás, uma expressão sua ficou retida no meu filtro de observações: quando eu disse a minha idade. Acho que a desconexão ocorreu ali. 7 anos né? Já vi algumas motos indo de 0 a 100 apenas com a primeira marcha engatada. Mas aqui me parece ser mais específico ne? Agora já passou. Nada que o tempo não possa fazer. Como diria Renato Russo: o tempo é mercúrio-cromo. Fabricante de Wolverine. Cicatriza mesmo. Ossos quando se quebram, podem ser colados né? Se não colar a gente parafusa. E as carnes? Se não cicatrizar a gente costura? Tanto faz... a gente supera. Mas o fato é que preferi assim. Silencio - Quando a gente não pode oferecer algo de bom pra quem gostamos, melhor silenciar. Não posso negar a palavra ao próximo. Isso não é permitido na minha Ordem. Posso sofrer punições por isso. Não quero ficar sem falar com você mais. Mesmo que a cada momento eu encontre cada vez mais incompatibilidades entre você e eu, eu gosto de você. Embora eu tenha sublimado tudo numa espécie de crisálida de sangue seco. Um back-up por assim dizer.

Desespero
- O que foi?
- Nada não. "Parece cocaína, mas é só tristeza." Mesmo. Mesmo-mesmo. Deve ser a mortalha do amor, como diria Chico Buarque. Deve haver uma maldição de fato. Existe um ponto intransponível. Eu consigo avançar até certo ponto. Mas é sempre interrompido o processo. Eu sinceramente desisto. Não sei o que houve. Mas essa foi a última vez que tentei alguma coisa cardíaca na minha vida.
- Mas...
- Mas nada não... Não tem explicação pra isso. Eu achei de uma profundidade tão grande imensa e intensa, aquela exposição dela em função da brincadeira de mal gosto minha... aquela de dizer que as coisas em mim, as cosias de mim, as coisas pra mim são todas artificias e programadas.. Pensei: puxa! Ninguém se expõe assim por nada ou sem motivos. E sem contar outros indícios que o campo magnético da pessoa diz, né? Magnético, hormonal ou semântico. E ademais, ela disse: estou ficando apaixonada por uma pedrinha aí... Dessa vez eu estava convencido que conseguiria. Não medi esforços e, sem limites, me escancarei. E agora... agora eu estou perdido. Estou apaixonado e ela foi embora. Aliás, nem foi embora. Porque também não tenho certeza se um dia ela havia chegado.
- Acalme-se. A verdade pertence ao professor de Português. Ou ao carinha da informática que sempre faz back-up.

Mentira
- Oi tudo bem? Como vai? Foi mal o sumiço aí... estava meio ocupado. Cuidando de algumas coisas. Às vezes é melhor enfiar a cara no trabalho pra esquecer algumas coisas. Ou pra fugir mesmo. E compensa viu? A gente ganha mais dinheiro... atinge novas marcas... de lucro, claro. Aproveitei e dei uma viajada também. A princípio a trabalho. Mas um pouco de passeio também. O trabalho é sempre uma melhor opção que qualquer outra pseudo-ótima opção. E rentável, né? Quanto mais trabalhamos, mais dinheiro temos. Pelo menos lá na minha terra é assim. Sei que tem gente que chama isso de fuga. Mas que assim o seja. No final quem está mais rico sou eu! E isso é ótimo!

Ficção
- Além de eu ser um mecanismo, programado e artificial, os processos orgânicos no meu corpo atual seguem o padrão de sua espécie. Sem contar que eu já estive aqui antes e conheço como esse saco de carne podre funciona. Quando ocorre alguma tentativa de aproximação afetiva, imediatamente afasto as possibilidades. Estou em missão aqui na Terra. Embora eu tenha capacidade de me envolver afetivamente, não estou interessado. Minhas rotinas e sub-rotinas programadas possuem parâmetros da psique humana. Uma espécie de simulação neuro interativa. "A projeção mental do meu eu digital". Minha parte orgânica é capaz de emular a atmosfera da subjetividade humana e até se envolver sentimentalmente com um de vocês. Porem, conheço os processos químicos, físicos e naturais para resetar as subjetividades que são capazes de provocar sentimentos. E sempre que elas se fazem presentes, eu as reseto. Como havia dito, não estou interessado. Todavia, sempre conservo um back-up de segurança de cada uma dessas interações no decorrer de minha vida útil para fins de aprimoramento. Não creio ser necessário fornecer muitos detalhes. O princípio é muito conhecido. A consolidação da memória é composta por três etapas, a saber:

Primeira: a informação sai do banco de dados do cérebro.

Segunda: ela chega à sua consciência e é acessada.

Terceira: a informação é gravada novamente no banco de dados.

É sabido que, se você bloquear uma determinada proteína, a terceira etapa simplesmente não acontece – e a memória não é regravada. Ela some para sempre. Esse é o princípio básico também de armazenamento de dados. Em seres humanos, sintetização de proteínas. Em nós, 0 e 1. Energia e ausência de energia.  Por mais esforços que eu empregue no encontro de incompatibilidades entre vocês e eu, algumas coisas ainda possuímos em comum. E esse é o meu ponto vulnerável. Embora seja insolúvel, é esperado. O que, por conseguinte, não foge de uma certa forma de controle.

domingo, 14 de outubro de 2018

"Esse texto foi escrito um dia depois do seu acidente. Eu me  
  atrevi escrever. Guarde entre seus pensamentos e entre as   
               brechas que existem no seu coração de adamantium."      


14 de julho de 2009

Eu me atrevo a escrever. Me atrevo porque sinto que é assim que chegarei até você. Escrevo não um artigo científico sobre um tema acadêmico que é o meu costume. Escrevo um... um... Escrevo algo para você. 

É estranho, acabei de entrar no seu orkut. Fui na página de recados. Entre lágrimas li o que escreveram para você. Você, por enquanto, não vai ler. E as pessoas sabem disso. Por que eu fui no seu orkut? Eu sei que não tem nada de novo, mas eu fui. É bom para gente. A gente sente você. Talvez por causa das fotos. Talvez por causa das palavras que você deixou lá. 

Tenho uma vantagem à frente das outras pessoas: os e-mails que trocamos na semana passada. Os textos que você escreveu e me enviou. E que eu li reli e treli milhares de vezes. Em um deles você disse: “às vezes não tiramos carteira de primeira, sabe? Mas na segunda vez a gente consegue!” Jeito diferente de me contar que tinha tirado carteira. Fiquei feliz porque você tinha conseguido o que queria a tanto tempo. Fiquei triste porque estava preocupada. Moto é perigoso, eu dizia. Toma cuidado, Sérgio. E você com aquele ar de ser como Deus e estar em todas as coisas, dizia que não era bem assim e que você não se importava com isso.

Não sei se você está em todas as coisas. Mas sei que você está em mim e em tantas outras pessoas que te amam e te querem sempre por perto. O seu coração de adamantium já passou por poucas e boas e também por muitas e más. Essa será mais uma de tantas. Você me disse que estava bem, que estava ótimo. Que tinha voltado a escrever e que iria comunicar ao mundo o que é a vida! Espero, ansiosa, pelo seu comunicado.

Você me disse que o bater das asas de uma borboleta num extremo do globo terrestre, pode provocar uma tormenta no outro extremo no intervalo de tempo de semanas, você me disse que se navegar é preciso, viajar é inevitável, você me disse que o número de conexões cerebrais possíveis é maior que o número de átomos existentes no planeta. Você me disse que achava que o mundo não fosse acabar. E também disse que achava que o Elvis não tinha morrido. Você deve pensar o mesmo em relação ao Michael Jackson. Você me disse muitas coisas que eu não esqueço. Você gostava de falar da minha magia de menina inteligente. Você um dia me chamou de salva-almas. Você já me chamou de chata e também de meu bem... Você me disse que estaria ao meu lado sempre que eu precisasse. Você me disse! O Relictia me disse e o Morais Filho também me disse. E agora? O que faço com todas as coisas que ouvi? Ainda preciso ouvir muitas coisas de você. E você precisa repetir mais umas tantas que eu ainda não gravei. Preciso do cheiro de seu hálito revestindo os verbos que, impessoalmente, protagonizam ações inconjugáveis.

Aguardando sua volta, fico aqui.