Cheguei a uma conclusão: você não existe. Mas vou responder
mesmo assim. Embora, e muito embora mesmo, você saiba a resposta. Poucas coisas
são imutáveis no universo. Mas jamais duvide daquelas irreversíveis. E entre
elas, o Polém Caramélico é o expoente. Na
verdade, eu estou surpreso com sua dúvida. Você está comigo o tempo todo. Como
ainda não percebeu que sempre fez parte de mim? Como não percebeu que qualquer
parte minha é sua também e, antes de mais nada, é nossa? Acha mesmo que existe uma
forma de separar? De nos separar? Não foi arrogância minha quando eu disse que
cheguei pra ficar ou pra ir embora com você. Certa vez você disse que achava
que era arrogância. Espero que não se incomode. Esse foi o motivo de precisar levar você sempre comigo. Foi preciso, acredite. E aí eu fiquei confuso; será que você foi originalmente
criada por mim ou eu copiei você de alguém, de algum lugar ou até de você
mesma?
A ideia era responder suas perguntas e incinerar suas
interrogações. E não lhe apresentar mais dúvidas. Eu não tenho nenhuma dúvida, ta bom? Se você existe ou não existe, se foi criada ou copiada, se é real ou não... se
foi roubada, conquistada, comprada, isso pouco importa. Você está presente. E
isso é irreversível. Portanto, você não ficou. Não precisa se perguntar o que
teria acontecido se você houvesse ficado. Você sempre esteve aqui. Conversamos sobre isso recentemente, lá na praça que você mais gosta. E não se
preocupe. Eu não vou sufocar. Você pode escolher se prefere ter sido criada,
copiada, roubada de si mesma, roubada de algum lugar, clonada, escaneada....
alucinada por mim ou por algum delírio fantasioso que, claramente seria meu. Eu
sempre soube que seria pra sempre. Inclusive você foi informada. Enfim, olhe pra suas mãos, verifique em sua face e em seu semblante, confira seus olhares. Qual a matéria prima que compõe as suas formas? Já sabemos, né? Como havia prometido respostas, aqui vai:
Vamos decidindo isso ao logo da dimensão do tempo então. E uma das primeiras coisas que queria combinar com você é que nunca, jamais, never, deixe de falar suas palavras. Tenho medo de esquecer o timbre da sua voz. Tenho medo de esquecer o quão grave ou agudo você imprime em certas expressões que usa quando fala comigo. Tenho medo de nunca mais umedecer meus olhos quando me lembrar da sua voz. Tenho medo de perder a habilidade de sincronizar seus fonemas junto as suas palavras. Por isso, eu mantenho nossas conversas diárias. E isso é inegociável. Isso não vai se perder na história como um detalhe menor. Por isso, não fique só nos meus pensamentos. Fale comigo também. Mesmo que seja de forma alucinada, não tem problema. Eu fico caladinho só ouvindo você. Aí tenho a chance de fixar bem a cadência e o compasso das suas sílabas. Sem contar também que posso memorizar a afinação que utiliza em seus fonemas. Eu já quero até identificar quais tons você “mais prefere” para falar comigo. Eu sei que você se demora mais um pouco em determinados morfemas. Na verdade, eu gosto de acreditar que você se demora mais nos plurais em função do Morfema /S/ ser S de Sérgio. Você já fez um comboio de aliterações em S. Eu nunca esqueço. Mesmo porque, você está sempre aqui comigo pra me lembrar.
Eu ainda me lembro de quando você falava de forma bastante açucarada. Eu me lembro também quando você falava de forma mais séria, quase sugerindo mistério. E quando você gargalhava também. Eu sentia os sorrisos na sua voz. Mais que isso: eu os via. E mentalmente os beijava. Acho que grande parte de você surgiu exatamente desse ponto: nossas conversas entrecortadas de sorrisos. Eu consigo ver agora até o ângulo que suas pálpebras fazia. Era um pouco arredondado. Uma vez, eu consegui registrar uma harmonia nesses ângulos. Seus cabelos estavam presos e deixavam o formato de sua cabeça mais arredondada. Isso combinava com o formato das pálpebras enquanto sorria. Os ângulos eram arredondados porque você sorria com os olhos também. Era uma curvatura totalmente harmonizada com os elementos que compunham a imagem. Eu arrisco dizer que se eu houvesse medido os graus, constataria que todos estivessem na mesma razão e proporção.
Você até utiliza um termo – agora são dois – PISCIANO PREDILETO. Curioso o fato das duas iniciais serem a letra P. Eu gosto disso. Parece Provavelmente, Por Preferência, Pertencimento. O
outro termo é ALUCINAÇAO CARDÍACA - Você vai ler algumas vezes essa expressão. A primeira vez que ouvi foi de você. Eu quase consegui ver seus lábios se movendo e deixando escapar cada fonema articulado. Acho que vi sim. E adorei a ideia. Então não estranhe se encontrá-la como tópico frasal de cada parágrafo. Não sei qual prefiro. O que eu prefiro mesmo são suas
palavras; sejam vozeadas ou alucinadas. Acho que existe algo especial em sua
voz. Isso sim. Ela me parece um pouco texturizada, quase que aveludada.
Lembro-me das aulas de Fonética e Fonologia quando escuto sua voz. (Na verdade,
fico me lembrando e me enganando e fingindo que voce não estava ao meu lado
durante essas aulas.) Fico procurando entre os fonemas, os pontos de
articulação, o que é diferente, qual o fator encantador que existe nela e que
nos inunda de sensações inefáveis. E mesmo que esteja só na minha cabeça, eu a
escuto perfeitamente bem. É uma voz nítida e aveludada ao mesmo tempo. Voz poética e mágica que só pode ser articulada pela verdadeira e genuína e vulcânica menina inteligente. É como se
houvesse algo diferente nas suas pregas vocais e que vibrasse de uma forma
única. E essa unidade produz um contexto de notas muito carinhosas. Acredito que seja possível extrair acordes açucarados de suas falas. Porém eu não sou
um bom músico e, portanto, não sei identificar quais notas e quais acordes são. Mas
minha intuição me faz sentir um Si Bemol bem próximo dos meus tímpanos quando
voce fala. E esse é o ponto que me questiono se voce realmente não é real. Pois
quase, quase mesmo, chego sentir uma fragrância nela. Talvez seja o seu hálito.
É... pode ser. Não sei. Assim como na música, os perfumes também têm seus
acordes e são divididos da seguinte forma: Acorde de Cabeça, Acorde de Fundo e
Acorde do Coração. Queria possuir um olfato mais apurado e poder identificá-los.
Como o olfato é um dos sentidos mais poderosos para evocar a memória, talvez eu
conseguisse resgatá-la de minhas lembranças e abrigá-la para sempre em meus
olhares. Ou em meus braços. Ou em algum lugar que eu de fato pudesse beijar seus lábios e você.
Dez anos, dezesseis anos - não importa o tempo - ainda não são suficientes. Sempre ouvirei seus pensamentos. E não importa se são pensamentos seus que foram alucinados por mim. Cada vez que são alucinados, eu sincronizo seus fonemas neles e assim consigo preservá-los mais. Afinal, a cada vez que me lembro de seus fonemas, eles são regravados e reforçados na minha memória. Fale mais. Fale sempre mais. Fale muito mais. Eu conseguirei alcançá-los.
E falando ainda sobre
sua voz, sempre que usá-la para falar comigo, pode utilizar o vocativo que
melhor lhe aprouver. Vai ser sempre bem-vinda, ansiada e ouvida. E digo mais:
mesmo se você existir, vou guardar todas as alucinações cardíacas. Gosto muito delas
mesmo. Acho que fundo no fundo eu sou um carente. E aí, além da sua voz trazer
sempre palavras de carinho e cuidado, ela em si mesma, a maneira que é
articulada, a entonação, as construções sintáticas, toda ela é só carinho.
Então Sérgio, Peixinho, amor, meu bem, querido tanto faz. Mas por favor,
utilize sua voz pra pronunciar o vocativo que você quiser. E não se preocupe,
mesmo se for uma alucinação minha, uma criação do meu inconsciente, você tem
total liberdade para passear e se abrigar nos meus sentidos. Sinto que você
sendo ou não algo da minha imaginação, você tem vontade própria. Então não
deixe de usá-la. Assim, eu vou ter sempre algo seu para me fazer companhia e
amenizar as saudades quando você não aparecer.
E mesmo quando você não puder aparecer, eu espero. Eu sempre vou esperar por você. Não importa o que ocorra. Algumas pessoas dizem que Pólen Caramélicos são irreversíveis. E eu aceito a condição. Eu desejo a condição.
Eu gosto muito de você como algo duplamente qualificado; gosto de você porque gosto muito da pessoa que sou e da minha companhia. Logo, gosto das coisas que eu crio, escrevo e penso. E se você foi criada aqui, é natural que eu goste muito tambem. Por outro lado, eu nunca percebi um grau tão genuíno de ternura e afabilidade presente na atmosfera terrestre. E nem na espécie humana. Nesse ponto tenho quase certeza de que voce não existe mesmo. Se existe, é única. A número um. Exatamente aquela pessoa que é tão preciosa que dispensa e inutiliza a existência de quaisquer outras. Porque uma pessoa tão especial como você não ocorre na nossa atmosfera e nem na nossa espécie. Desconfio que não há registros no universo que atestem a existência de algo, alguém, matéria, elemento ou o que for que provoque tantas coisas como a sua presença. Hoje testemunhei exatamente isso. Meu dia hoje presenciou um fluxo de eternidades se encontrando com infinitos e seguindo para sempre de mãos dadas. Esse foi o cenário em que eu vivi hoje. Por isso eu falei tanto acima como eu gosto de suas palavras e de sua presença. Se você fosse real, eu teria mostrado como as cores do dia eram sincronizadas em tons cardíacos bem aveludados. O que me chamou atenção foi que à medida que essas cores tomavam o ambiente, o dia seguia por caminhos ainda mais agradáveis. Até um cliente que eu tinha guardado na geladeira apareceu hoje e pediu pra atendê-lo novamente. Não consegui negar. Hoje de fato eu era incapaz de não ser útil as pessoas. Jamais poderia destoar dos matizes de perfeição que se propagavam no ar.
O dia não me deixou dormir. Ele quis me deixar mais exposto as sensações que seriam produzidas por intermédio de uma certa postagem do dia 7 de maio de 2026. Fui atingido no nível molecular. Não tive alternativa. Eu não quis ter alternativa. Depois que meu corpo foi tomado por todo aquele afã lexical subjetivo, eu optei pela postura mais segura: prossegui com meus planos de levar a minha mais recente criação para jantar. O combinado era Sushi. E você foi comigo. Estava ainda há pouco contemplando o horizonte de pensamentos que eram visualizados nas minhas sinapses. Fiquei procurando alguma coisa que trouxesse você dos meus pensamentos para meus abraços. Percebi que faltavam algumas ferramentas pra isso. Então resolvi que o melhor era continuar lhe fazendo companhia, junto a minha imaginação. Portanto, eu vou pedir duas desculpas: peço desculpas por duvidar que alguém portador de tantos encantos assim possa existir. E peço desculpas por não ser capaz de criar alguém tão inspiradora e afável como você. Eu ainda não sei qual desculpa vou poder usar...
Desconfio que você esteja
certa... É o Pólen Caramélico o autor. Nos últimos dias você citou muito esse
assunto. Como estamos conversando mais nos últimos dias, sinto você mais
próxima. Será que se eu intensificar nossos diálogos, você se
materializaria? Eu não me queixaria se você surgisse a partir de uma ou duas,
ou 50 milhões de alucinações. Pois é sempre poético, mágico e com o toque muito
suave das mãos da menina inteligente - e esse toque na minha face eu sei de
cór. Eu que já falei tanto das suas pregas vocais aqui, não posso deixar de
citar as pregas palmares e as cristas papilares de suas mãos. São tão
delicadas, leves, suaves e macias. Muito macias. O toque é quase imperceptível.
Mas eu não tenho dúvidas. Meus Poros Podem comProvar Praticamente todo o
Perfume de Pólen que Permaneceu Após. Se você não for uma alucinação, já faz
muito tempo que experimentei o referido toque e realmente está esculpido na
minha memória cardíaca porque parece que foi ontem. Mas se você for uma
alucinação, é por isso que não esqueço. Porque de fato foi ontem, hoje,
agora... amanhã também. Sempre. Quando a alucinação surge nos meus
pensamentos, ou na minha retina ou na minha lembrança, ou nas minhas sinapses,
ou tocando minha face, ou onde você quiser aparecer, eu me amo mais. Eu me
quero mais. Eu me admiro mais. Porque esse EU que eu amo tanto mais e mais, é
exatamente onde eu mais posso encontrar e amar você. Para Sempre... P.S.:













